Este artigo foi escrito por:
LUIZ DINIZ
Censo 2024 IBGE – Aprox. 22 Milhões de Brasileiros próximos da aposentadoria, entre 55 e 65 anos.
Desde de muito cedo vivenciamos processos transicionais, nem sempre conscientes do que está se passando, nem sempre preparados para o turbilhão de efeitos gerados por esses processos.
Nossa primeira experiência de transição talvez seja o momento que começamos a respirar, ao sair do ventre de nossa mãe. Ao longo de nossa gestação conhecemos um ambiente acolhedor e protegido pelo conforto do ventre até o momento de nossa passagem para o lado externo. Muitos de nós, senão a maioria, experimentam neste momento uma enorme quantidade de sensações desconhecidas como temperatura fria, luzes fortes, sons e texturas diferentes, sem falar no novo exercício que é a respiração. Essa é certamente uma das primeiras habilidades que nosso corpo manifesta quando nascemos e a última quando deixamos esta vida.
Assim como na primeira respiração, todas as demais transições que experimentamos ao longo de nossas vidas, não são precedidas por nenhum treinamento ou preparação, “só aprendemos a nadar depois que entramos no mar”. O aprendizado acontece na maior parte das vezes “durante o processo”. Mas não precisa ser sempre assim, como veremos mais à frente.
As mudanças mais marcantes que vivemos ao longo da vida podem variar bastante em termos de importância, impacto e significância, dependendo das características psicoemocionais e da própria história de cada indivíduo.
Um exemplo de transição que o ser humano experimenta ainda nos primeiros meses de vida, é quando, ainda bebê, consegue se sentar, olhar para os pés e perceber que não está mais conectado ao corpo da mãe. Este é um momento muito comum no desenvolvimento da criança. É nesta fase que as crianças se apegam à objetos como um brinquedo, um bichinho de pelúcia, um lencinho, um cobertor ou uma chupeta e sempre os carregam na hora de dormir ou quando se sentem sozinhos. São os famosos objetos transicionais, bastante comuns na primeira infância e importantes para o desenvolvimento emocional da criança. São objetos aos quais a criança se apega quando começa a entender que ela e a mãe não são a mesma pessoa.
Muitos outros processos seguem acontecendo ao longo de nosso desenvolvimento como por exemplo o primeiro dia na escola longe da mãe, a primeira menstruação, a primeira paixão, o primeiro emprego, o momento de morar fora da casa dos pais, as mudanças de emprego ou carreira, o casamento, um eventual divórcio, perda de familiares importantes, perda de um emprego, a aposentadoria, dentre outros.
Em alguns destes processos podemos nos preparar, tentar aprender com outras pessoas e até planejar antes que aconteçam, o que sem dúvida é de grande valia, mas na verdade só vamos saber como realmente será no momento em que passamos por ele, durante a vivencia da transição.
Aos poucos vamos entendendo a diferença entre aprender conceitualmente e aprender com a experiência pessoal, vivida e sentida, o que só é possível quando passamos pela mudança.
Podemos tirar diversos aprendizados com esses processos e aos poucos compreender como é passar por estes momentos e principalmente como são as nossas reações.
Podemos reagir a estes processos de duas maneiras, permitindo que o medo influencie nossos pensamentos, o que tornará a experiencia, algo difícil e doloroso, ou reagir de maneira positiva com a expectativa de que aconteçam coisas importantes para o nosso aprendizado e desenvolvimento, o que tornará a passagem mais interessante e tranquila.
Podemos também suavizar as turbulências destas passagens nos preparando com antecedência e utilizando recursos que nos ajudem durante o processo.
As etapas e suas nuances em um processo de transição podem variar, mas se assemelham em sua estrutura sequencial e se apresentam quase sempre em três fases:
- Fase 1 – A Perda - Temos nesta fase o impacto da perda, seguida do reconhecimento do que não existe mais ou do que abrimos mão. Esta é a fase de “luto” quase sempre com memórias recorrentes do que agora é passado. Como em qualquer fase de luto, passamos pela negação e isolamento, depois a raiva, angustia e culpa, fase da barganha, etc.
- Fase 2 – A Transição - Esta é uma etapa crítica onde enfrentamos incertezas, indefinições sobre o novo, lidando com o que é ainda desconhecido. Muitas vezes aparecem crises de identidade, sentimentos de medo, solidão e ansiedade. Este é um momento caótico que pode levar a dois caminhos, um mais crítico marcado pelo desespero, baixa autoestima e até depressão com reflexos traumáticos e outro mais saudável que conduz à superação e à mudança para a terceira fase.
- Fase 3 – O Reinício – Aqui já existe um desapego do que é passado, a energia é redirecionada para o novo, registramos a aprendizagem de novos padrões e valores e começamos a nos sentir mais confortáveis com o novo Status Quo.
APOSENTADORIA - O PROCESSO DE TRANSIÇÃO
O processo de aposentadoria é um exemplo onde encontramos comumente estas 3 fases. Elas podem ser encontradas não apenas para pessoas que se aposentam pelo regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho / Lei Brasileira) como para profissionais autônomos, mesmo que com algumas sutis diferenças. Podemos também considerar efeitos similares em outras culturas, especialmente nos países ocidentais.
Muitos de nós sonhamos com a aposentadoria como um momento em que teremos paz e tranquilidade, livres da pressão e do estresse do dia a dia. Alguns sonham em se ver livres da carga de trabalho, dos ambientes corporativos hostis ou até mesmo do medo de perder o emprego antes da hora. E então chega o momento da transição!!
De fato, você se liberta da pressão, do estresse e em alguns casos dos ambientes tóxicos. No entanto, passados alguns dias você se dá conta de que a vida, antes da aposentadoria, não era apenas um conjunto de coisas ruins....
Existia a convivência social, os colegas do café, os bate-papos do almoço, a cervejinha no final do dia e os churrascos celebrativos. Além do salário e dos benefícios, havia um sobrenome emprestado pela empresa e conectado a tudo isso, um sentimento de pertencimento e inclusão.
Outro aspecto interessante é que nos primeiros momentos como aposentado você se sente literalmente de férias, mas após algumas semanas, você percebe que as férias não acabam e não há pra onde retornar.
Muitos aposentados neste momento começam a sentir uma solidão estranha, percebem que ninguém mais os procuram, ligam, ou mandam e-mails. O sentimento de exclusão passa a preencher o vazio da agenda e se não houver um bom preparo emocional ou um suporte adequado da família pode se tornar um momento bastante crítico.
Um dos pontos mais difíceis nesta fase é a segunda-feira pela manhã. Ironicamente o mesmo momento da semana que muitas vezes gostaríamos de evitar ou pular na agenda, se torna o momento em que o aposentado sente mais falta da rotina. A rotina de levantar, tomar um banho, se vestir, tomar o café, se organizar e sair para o trabalho.
Acordar na segunda-feira sem uma rotina definida, para a maior parte das pessoas aposentadas, é uma mudança muito difícil porque se trata de um hábito construído ao longo de uma vida. Passamos praticamente toda a nossa vida, especialmente a vida profissional acordando todas as segundas pela manhã e repetindo a mesma rotina todas as semanas. O próprio corpo reclama, a ausência de uma rotina, muitas vezes com sinais de apatia ou simplesmente adoecendo.
Construir uma nova rotina pode ser algo complicado sem um planejamento cuidadoso. Ao tentar construir uma nova rotina dentro de casa, o aposentado muitas vezes percebe que não se preparou para ficar tanto tempo do dia dividindo o mesmo espaço com a família. Essa adaptação demanda um esforço não apenas do aposentado, mas especialmente da família que também não se preparou para conviver diariamente, e no mesmo espaço.
Quase sempre pensamos na aposentadoria como um simples “parar de trabalhar”, mas na verdade este processo é bem mais complexo e envolve aspectos com relevantes impactos na vida do aposentado. Aspectos relacionados à administração financeira, a saúde física e principalmente a saúde emocional. Nesta mudança podemos perceber alterações nos relacionamentos familiares, na convivência com os amigos, nas agendas sociais e por fim na própria autoestima.
O planejamento para um processo de aposentadoria deve preferencialmente iniciar alguns anos antes da aposentadoria. Um bom planejamento deve considerar pelo menos, quatro áreas fundamentais como a estabilidade financeira que sustentará a qualidade de vida que queremos, os relacionamentos sociais / familiares, a saúde física e, por fim e não menos importante, a saúde emocional.
PLANEJAMENTO FINANCEIRO
A aposentadoria muitas vezes é sonhada para que aconteça após os 60 e poucos anos, e neste caso o planejamento deve iniciar, idealmente, quando temos 40 anos, o que é muito raro acontecer. São poucos os que pensam em um planejamento de aposentadoria com esta antecedência. Desta maneira, com um planejamento antecipado em 20 anos, temos mais chances de organizar uma poupança ou uma previdência privada, reduzindo o padrão de vida em 10 ou 15% de maneira a destinar este percentual à uma poupança. Isto exigirá certamente muita disciplina, mas não existe um planejamento de sucesso sem um significativo esforço.
FAMILIA
Não apenas a pessoa que se aposenta, mas a família também sofre impactos importantes neste momento. Em muitos casos, a família, acostumada a conviver com a pessoa (aposentada) apenas no início das manhãs e no final das noites, passa a conviver com ela 24 horas por dia. A rotina da casa muda completamente, da noite para o dia. O foco da própria família, incluindo especialmente o aposentado, muda e muitas vezes sem uma clara definição de “pra onde estamos indo...”.
Se não forem tratados adequadamente, esses aspectos subliminares podem se transformar em conflitos instantaneamente.
Quando temos um plano bem definido, a família tanto participa do planejamento como está incluída nele. Todos sabem que haverá mudanças nas rotinas e que é importante ter alternativas para não deixar “espaços vazios”. Espaços na agenda diária da família que antes eram ocupados pelo trabalho ou para sua manutenção, agora precisam literalmente ser substituídos por outras rotinas.
A ideia de que a aposentadoria é o momento de “colocar o chinelo” e “relaxar no sofá” é um grande equívoco e não se sustenta por mais de duas semanas, que é mais ou menos o tempo que periodicamente as pessoas estão acostumadas a sair de férias. A diferença na aposentadoria é que após duas semanas, a pessoa não tem “para onde voltar”, não tem mais a mesma demanda, a mesma agenda e neste momento o risco de um quadro de depressão emocional é muito grande.
Os relacionamentos sociais na aposentadoria costumam se reduzir bastante e para isso é importante considerar algumas ações que facilitem a manutenção destes relacionamentos, como os encontros familiares, encontros no clube, encontros na igreja, encontros para praticar esportes ou hobbies, festas de aniversários etc.
SAÚDE FISICA
Nem todo mundo tem facilidades ou gosta de frequentar uma academia de ginástica ou mesmo praticar algum esporte que exercite os músculos, mas isso é fundamental para a manutenção de nossa estrutura física, especialmente após os 50 anos. Quando mantemos uma rotina de exercícios físicos nossa estrutura fisiológica tem um melhor funcionamento além de proporcionar melhores condições para a saúde emocional com a produção dos hormônios que conhecemos como o quarteto do bem-estar: a endorfina, serotonina, dopamina e a ocitocina.
Outro aspecto relevante é a qualidade dos alimentos que comemos e dentro do possível precisamos ser mais seletivos em nossas escolhas, não apenas na aposentadoria obviamente, mas ao longo de toda a nossa vida. Neste sentido é importante dedicarmos um tempo para estudarmos, aprendermos sobre alimentos, conhecimento que deveria ser mandatório nas escolas, desde os nossos primeiros anos acadêmicos.
Independente de nossa saúde física e emocional, é importante considerarmos também um plano de saúde que possa minimamente nos servir como um socorro em caso de necessidade. Nesta fase da vida é onde mais as pessoas necessitam de suporte médico.
SAÚDE EMOCIONAL
O planejamento da saúde emocional deve ser na verdade um cuidado importante desde que nascemos. Em nossa cultura ocidental, não é muito comum encontrarmos iniciativas que valorizem estes cuidados e normalmente começamos a dirigir atenção para nossas emoções apenas quando apresentamos alguma doença psicossomática como, transtornos de ansiedade, fobias, traumas debilitantes, depressões, dentre outras.
Os aposentados percebem rapidamente que não pertencem mais a mesma comunidade de antes, o mesmo círculo de pessoas e por vezes se sentem “excluídos”, sem entender os efeitos silenciosos que podem impactar as emoções. O “descanso”, tão sonhado pós aposentadoria, se transforma em um sentimento de isolamento, de solidão e pode em muitos casos levar ao um quadro depressivo.
Condicionamos nosso corpo, ao longo de toda a vida, a rotinas. Desde a primeira escola, passando pelo colégio, pelo primeiro emprego, pela faculdade, estamos sempre engajados em alguma atividade rotineira. Nosso corpo não está preparado para “parar”. Assim como um veículo que fica parado em uma garagem por muito tempo, pode apresentar problemas de funcionamento, nosso corpo também se deteriora se pararmos por um longo período, especialmente se não nos prepararmos para essa transição, consciente das implicações.
Não apenas o nosso corpo, mas especialmente nossa mente precisa de uma rotina que substitua a anterior. Não necessariamente um trabalho, ou uma ocupação profissional, mas sim uma rotina que “mobilize” nossa atenção, nosso corpo e nossa mente. Quando aposentamos, podemos parar de trabalhar, mas não paramos de pensar, não paramos de sonhar, não paramos de viver.
Em nosso planejamento temos que incluir uma atividade que utilize nossa energia criativa e nos mantenha ativos para uma espécie de segunda carreira ou segunda fase de vida. Esta atividade se possível deve ser iniciada antes da transição ou no máximo um mês após.
Nesta fase da vida gozamos do benefício de anos e anos de aprendizados que podem e devem ser utilizados para iniciar um novo ciclo produtivo. Adquirimos nesta “escola da vida” um enorme e rico conhecimento que nos favorece não apenas em uma nova atividade, como também na maneira como olhamos a vida e as relações com as pessoas.
Esta nova rotina é peça fundamental para manter uma vida ativa em nosso corpo e em nossa mente. Ela pode ser composta de várias pequenas rotinas, como ir à academia, escrever um livro, construir uma casa, desenvolver um projeto, produzir algo, criar uma empresa, dar aulas, desenvolver um projeto socioambiental, aprender novas habilidades, um novo hobby, etc.
A rotina preferencialmente, deve ser algo que concilie um prazer pessoal com o sentimento de orgulho em produzir um resultado útil.
Como uma fase nova, que ainda não conhecemos, muitas novidades podem nos surpreender e precisamos também nesta fase estar abertos para absorver e aprender com a experiência. Compartilhar a experiência vivida com outras pessoas que passam ou já passaram pelo mesmo processo pode ser também muito interessante e enriquecedor.
DINIZ, Luiz / Processos Transicionais - Aposentadoria
A DNZ CONSULTING desenvolve programas de PPA - Planejamento para Processos de Aposentadoria com um escopo sistêmico e com um foco ESG para organizações que tenham práticas socioambientais, de governança corporativa e que se preocupam com critérios de sustentabilidade. Nossos programas não limitam a participação pela idade, mas geralmente são direcionados para profissionais acima de 40 anos.
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